Causas de Morte de Damião de Goes

Mar 30

Durante muitos anos várias foram as hipóteses levantadas. Em 2004, um estudo com o contributo da análise radiologica trouxe revelações únicas.

Esta foi primeira investigação do projeto de mecenato cultural  IMI-art em reposta a um desafio do arqueólogo Dr. Fernando Rodrigues Ferreira.

Equipa de investigação

Arqueólogos: Fernando R. Ferreira, Conceição Neves. Medicina Dentária e Antropologia Forense: Cecília Casaca. Médicos IMI: Jorge Cannas Simões, neurorradiologista e Carlos Prates, radiologista

Enquadrado nos 500 anos do nascimento de Damião de Goes, este projeto do arqueólogo Dr. Fernando Rodrigues Ferreira, visou conhecer melhor o período mais controverso da vida de Damião de Goes, o da sua morte.

Várias hipóteses tinham sido levantadas ao longo dos anos, mas a mais recente datava da transladação do cronista em 1941, com a sua morte atribuída a violenta pancada na cabeça, revelada por uma lesão focal no seu crânio (Fig. 1).

descricao 1941 transladacao restos cronista

Fig.1:  Descrição em 1941 quando da transladação dos restos do cronista

A investigação arrancou em Setembro de 2002 com a exumação na Igreja de S. Pedro em Alenquer (Fig. 2 e 3). No seu caixão de chumbo, estavam uma cabeça óssea e grande quantidade de ossos, de vários indivíduos e de várias idades. No seu interior encontrava-se ainda uma garrafa de vidro verde contendo o texto da descrição da transladação (Fig. 4).

fig.2e3 igreja caixao

Fig. 2: Igreja de S. Pedro, Alenquer – exumação em Setembro de 2002                  Fig.3: Caixão de chumbo de Damião de Goes

caixao apos abertura

Fig. 4: Conteúdo do caixão logo após abertura

A análise do crânio atribuído a Damião de Goes foi uma peça central da investigação (Fig. 5), tendo-se obtido um registo digitalizado de alta resolução por radiografia e TAC (Fig. 6 e 7). A análise antropológica permitiu a identificação do sexo e grupo etário e a radiologia dedicou-se à avaliação de detalhe da conhecida alteração focal da calote craniana.

Fig.5: Detalhe do crânio atribuido a Damião de Goes        Fig.6: Reconstrução por TAC em 3D – vista externa        Fig.7: Reconstrução por TAC em 3D – vista interna

Fig.6: Diagrama sobre o processo de degradação post-mortem que terá causado a alteração focal da calote craniana

Conclusões:  

– o crânio no caixão é de um homem mais jovem, não sendo compatível com a idade da morte do cronista (74 anos).

– a lesão focal da calote, corresponde a uma alteração estrutural óssea fisico-química, tafonómica, ocorrida na sua inumação ( Fig. 8), não traumática.

– a tese de agressão e assassínio não é comprovada.

– o crânio de Damião de Goes, e a maior parte dos seus restos esqueléticos, têm paradeiro desconhecido.

Esta investigação revelou ainda falta de rigor na exumação/transladação do cronista e registos então efetuados, o que condicionou uma interpretação errada da história que vigoraria até estas conclusões em 2004.